
A relevância local deixou de ser opcional e passou a ser um requisito básico para quem busca crescimento no iGaming na América Latina. A avaliação é de Herbert Gaban, Diretor Comercial e de Marketing para a América Latina da KAT.
Falando durante o Media Lounge da SiGMA Europa Central, em Roma, Gaban explicou como alinhamento cultural, infraestrutura avançada de pagamentos e o uso prático da tecnologia se tornaram os principais vetores de uma expansão sustentável nos mercados de apostas online da região.
Segundo ele, a América Latina não é um mercado novo de apostas, mas sim um mercado recentemente digitalizado. As apostas informais, especialmente ligadas ao esporte, sempre fizeram parte do cotidiano. Agora, com a convergência entre regulamentação e tecnologia, essa base cultural está se traduzindo em uma rápida adoção de plataformas de iGaming regulamentadas — com destaque para Brasil, México e Colômbia.
“É preciso ser culturalmente relevante”
Questionado sobre como os operadores devem abordar o crescimento à medida que os marcos regulatórios avançam na América Latina, Gaban foi direto: modelos importados costumam falhar. “O que vemos com frequência na América Latina são empresas tentando trazer soluções que funcionaram na Europa e aplicar exatamente as mesmas regras aqui”, afirmou. “Elas acham que vão enfrentar os mesmos desafios, mas não é assim que funciona.”
Ele reforçou que o sucesso na região depende de compreender o comportamento local e os fatores emocionais que influenciam o consumidor. “A América Latina é muito emocional. Quando as empresas trazem soluções pensadas para mercados europeus mais frios, elas enfrentam dificuldades”, disse Gaban. “O primeiro passo para crescer de forma saudável é se tornar culturalmente relevante.”
Essa visão está alinhada a análises mais amplas do setor, que apontam a localização como um fator decisivo em mercados emergentes. Estimativas indicam que o setor regulamentado de iGaming na América Latina pode ultrapassar US$ 12 bilhões em receita bruta de jogos até 2028, com o Brasil respondendo por mais da metade desse total após a implementação de seu marco regulatório.
Localização como base estratégica
Gaban descreveu a localização não como uma camada de marketing, mas como o alicerce da confiança de longo prazo. “Se falarmos em 100%, a localização representa de 80% a 90% do sucesso”, afirmou.
Ele também citou experiências anteriores com operadores internacionais que passaram anos atuando no Brasil sem contratar profissionais locais. “Eles estavam no mercado havia seis anos e não tinham um único brasileiro na equipe. A maioria dos desafios vinha justamente disso”, relatou. Para Gaban, localização vai muito além do idioma e inclui atendimento ao cliente, hábitos de pagamento, tom de comunicação e posicionamento de produto. “Não é possível construir uma marca sustentável na América Latina sem pessoas locais e sem conhecimento local”, completou.
Pagamentos como motor de escala
Um dos principais facilitadores do crescimento tem sido a infraestrutura de pagamentos da região, especialmente o Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central do Brasil. Amplamente adotado em diversos setores, o Pix se tornou um pilar do ecossistema de iGaming no país.
“Estamos cinco anos à frente de muitos outros países em termos de tecnologia financeira, inclusive à frente dos Estados Unidos”, afirmou Gaban. “O Pix é instantâneo, simples e ajudou o mercado regulamentado a crescer muito rapidamente.”
Depósitos e saques ágeis, segundo ele, reduzem fricções, aumentam a confiança e melhoram a retenção de jogadores, transformando os pagamentos em uma vantagem estratégica, e não apenas em uma função operacional de bastidores.
IA como ferramenta competitiva atual
Ao falar sobre tecnologia, Gaban fez uma distinção clara entre prioridades imediatas e conceitos de longo prazo. Embora blockchain e tokenização sejam temas recorrentes, ele avalia que ainda não são centrais para a realidade do iGaming latino-americano, seja por questões regulatórias ou de maturidade do mercado. Já a inteligência artificial está transformando as operações agora.
“A IA não é mais o futuro. Ela é o presente”, afirmou. “Se você quer ser relevante, precisa usá-la.”A IA já vem sendo aplicada em áreas como redução de churn, segmentação de jogadores, personalização de conteúdo e eficiência operacional. Segundo Gaban, a tecnologia permite respostas mais rápidas ao comportamento dos jogadores, ampliando o engajamento sem perder a sensibilidade cultural.
Uma região que define o próprio caminho
Com o avanço da regulamentação em toda a América Latina, Gaban acredita que a próxima fase de crescimento favorecerá os operadores que conseguirem alinhar conformidade regulatória, tecnologia e cultura, em vez de simplesmente replicar modelos globais. “Não se trata de copiar fórmulas”, afirmou. “Trata-se de entender o mercado em que você está.”
Na visão de Gaban, o futuro do iGaming na América Latina será moldado por quem estiver disposto a investir localmente, se adaptar de forma contínua e usar a tecnologia como uma ferramenta prática, e não como um jargão. Uma estratégia que reflete a combinação única de paixão, inovação e escala da região.
Este artigo foi citado de: Sigma《América Latina supera os EUA em fintech, afirma especialista》,Link original:https://sigma.world/pt-br/news/localizacao-america-latina-boom-igaming-herbert-gaban/