A indústria global de iGaming passou por um período de ajustes regulatórios e de mercado em 2025. Ações regulatórias em partes da Ásia impactaram operações já estabelecidas, enquanto os mercados de previsão nos Estados Unidos ganharam escala e ampliaram sua base de participantes.

Antes considerados um segmento de nicho, os mercados de previsão se expandiram rapidamente em todo o território norte-americano, atraindo tanto o público varejista quanto investidores institucionais. Nos últimos dois anos, um número crescente de plataformas passou a operar nesse espaço, incluindo PrizePicks, Underdog, Novig e o Truth Predict, ligado ao presidente Donald Trump. Em 17 de dezembro de 2025, a exchange de criptomoedas Gemini lançou sua própria plataforma de mercados de previsão, enquanto a Fanatics apresentou sua oferta no início do mesmo mês — um sinal claro da crescente confiança na viabilidade comercial do setor.

Esse movimento não se restringe aos Estados Unidos. No Reino Unido, a bolsa de apostas Matchbook se prepara para lançar uma plataforma de mercados de previsão em janeiro, posicionando-se para competir com operadores norte-americanos já consolidados, como Kalshi e Polymarket. A DraftKings também avançou rumo ao lançamento de sua plataforma de previsões após obter aprovações federais consideradas estratégicas.

Esses desdobramentos apontam para uma realidade clara: os operadores estão se adaptando ao comportamento do consumidor, enquanto novas formas de participação no mercado ganham espaço. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado dos mercados de previsão tem intensificado as preocupações entre os principais stakeholders do setor de jogos.

AGA reage aos mercados de previsão

A Associação Americana de Jogos (AGA) tornou-se uma das vozes mais críticas a esse movimento. Bill Miller, presidente e CEO da entidade, declarou publicamente que as plataformas de previsão representam uma ameaça ao ecossistema regulatório existente. “Elas estão ameaçando as comunidades que atendemos, os clientes e consumidores que protegemos e os padrões que defendemos”, afirmou.

Segundo Miller, essas plataformas buscam acesso ao mercado sem assumir as mesmas obrigações de conformidade exigidas dos operadores de jogos licenciados. “Eles querem a oportunidade, mas não querem a conformidade”, disse, alertando que esse modelo pode enfraquecer a proteção ao consumidor e a supervisão regulatória.

AGA x CPM: um conflito aberto

Com o aumento das tensões, operadores de mercados de previsão passaram a se organizar de forma independente. Kalshi e Crypto.com anunciaram recentemente a criação da Coalition for Prediction Markets (CPM), uma nova entidade nacional do setor que também conta com Coinbase, Robinhood e Underdog. A coalizão tem como objetivo defender o acesso transparente e supervisionado em nível federal aos mercados de previsão em todo os Estados Unidos.

A iniciativa ocorre em meio a um crescimento acelerado do segmento. De acordo com uma pesquisa encomendada pela Kalshi, quase metade dos americanos com menos de 45 anos já utilizou um mercado financeiro online ou um mercado de previsão. Os volumes de negociação também dispararam, com a atividade total supostamente alcançando US$ 28 bilhões até outubro, incluindo US$ 4,4 bilhões registrados pela Kalshi em apenas um mês.

A CPM sustenta que os mercados de previsão se enquadram na legislação federal de commodities e alerta que uma abordagem regulatória fragmentada, estado por estado, pode empurrar os consumidores para plataformas offshore, além de enfraquecer os mecanismos de proteção contra o uso de informação privilegiada e a manipulação de mercado.

2026: um ponto de virada?

A crescente divisão prepara o terreno para um confronto regulatório que pode moldar o futuro das apostas nos Estados Unidos e além. Mas até quando sportsbooks tradicionais e plataformas de mercados de previsão conseguirão se desafiar mutuamente? E o que 2026 pode reservar para o setor? Para explorar se o caminho será de confronto ou coexistência, a SiGMA News conversou com Stephen Crystal, fundador e CEO da SCCG Management.

“Quem se apega a regras ultrapassadas corre o risco de ficar para trás enquanto o mercado segue em frente.”

-Stephen Crystal, fundador e CEO, SCCG Management

Crystal acredita que a indústria se aproxima de um ponto crítico do ponto de vista regulatório. “A convergência entre mercados de previsão e apostas esportivas tradicionais está chegando a um momento decisivo”, afirmou. “Contratos de eventos não se encaixam facilmente nas leis de jogos do século XX, mas os reguladores tentam forçá-los a estruturas ultrapassadas.” Segundo ele, essa incompatibilidade está impulsionando um conflito inevitável entre a supervisão federal e os regimes estaduais de jogos.

A gravidade dessa mudança, segundo Crystal, já se reflete em decisões tomadas por alguns operadores. “O fato de empresas estarem dispostas a deixar a American Gaming Association e até abrir mão de licenças em Nevada mostra o quanto levam os mercados de previsão a sério”, disse. “Abandonar a capital do jogo nos EUA não foi um gesto simbólico, foi uma declaração de que esses produtos representam o futuro das apostas — e não um experimento paralelo.”

No âmbito estadual, a resistência se intensificou. “Reguladores estaduais traçaram linhas rígidas, proibindo contratos de eventos esportivos e alertando operadores de que até um envolvimento indireto pode custar suas licenças”, explicou Crystal, descrevendo um mosaico regulatório fragmentado que forçou empresas a geobloquear serviços, sair de determinados mercados ou limitar produtos para evitar conflitos de jurisdição.

As tensões são especialmente fortes em jurisdições de jogos tribais. “Para as autoridades tribais, os mercados de previsão regulados em nível federal são vistos como uma invasão direta de uma exclusividade conquistada com muito esforço”, afirmou, acrescentando que essas plataformas costumam ser encaradas como “apostas esportivas não licenciadas operando por meio de uma brecha federal”.

Como resultado, o setor está cada vez mais dividido. “Operadores tradicionais apoiados por cassinos e reguladores estão lutando para proteger o sistema atual”, disse Crystal, “enquanto plataformas tecnológicas e apostas inovadores pressionam por um único marco regulatório federal, coerente e unificado”. Na avaliação dele, essa divisão tende a se aprofundar antes que qualquer compromisso seja alcançado.

Olhando para o futuro, Crystal vê 2026 como um possível ponto de inflexão. “Os reguladores não poderão depender indefinidamente de estatutos ultrapassados”, afirmou. “A demanda do consumidor já existe, os investimentos estão acelerando e os mercados de previsão estão avançando para estados que nunca legalizaram as apostas esportivas.”

No fim das contas, Crystal acredita que uma resolução é inevitável. “Mercados de previsão e apostas tradicionais estão em rota de colisão e isso exige uma solução”, concluiu. “A indústria pode evoluir rumo a uma regulamentação sensata ou permanecer presa a disputas legais e políticas que não beneficiam ninguém.”

Este artigo foi citado de: Sigma《Apostas esportivas e mercados de previsão nos EUA caminham para um “reset” em 2026》,Link original:https://sigma.world/pt-br/news/2026-pode-redefinir-os-mercados-de-previsao-e-as-apostas/